LION
As duas vidas que um homem pode ter
Eu estou sentado à mesa. Na minha frente, há cinco garrafas de vinho: três vazias, uma na metade e uma cheia. Uma tigela de sopa fria, extremamente mal preparada, é visitada pelas moscas aleatórias. Eu tenho 38 anos e me chamo Will. Apenas Will.
Pela janela, vejo os velhos que um dia chamei de pai e mãe se divertindo com seu filho de sete anos. Meu irmão, também chamado de Will, nascido para preencher o vazio que eu deixei no coração dos dois. Na parede de minha casa escura e fedorenta, dois quadros. Um é de Sally, a mulher à qual um dia me propus amar, porém da qual não cuidei. Sally está morta há dois anos. Suicídio. No outro quadro reside meu único filho com Sally, Lion. Ele tem vinte anos e hoje sai da cadeia. A sopa, preparei para ele, e o vinho é meu vício desde que matei 11 homens naquela noite de outono. Desde aquele dia, há vinte e três anos atrás, nunca mais senti o cheiro do vento ou gosto algum nos meus lábios.
A porta abre de repente e meu filho adentra a sala. Eu sorrio cinicamente. Ele não parece achar graça, mas que falta de humor!
-Então a mamãe morreu. Suicídio. – Ele constata com frieza. Não achei nada para dizer, então, melhor ficar calado. – Você é o pior homem do mundo, sabia?
-Quanto tempo demorou para descobrir isso, gênio? – Eu ri.
-Sério, pai! Como você pode fazer isso? Olha para sua vida! Será que nada mais importa, a não ser essa sua terrível mania de, todo outono, passar o dia todo sentado naquela maldita árvore? – Lion gritou. Eu sei, Lion, eu sei... – Vá fazer essa sua barba, cortar seu cabelo, perder essa barriga de álcool! Vá se tornar um homem de verdade!
-Bem, tenho que ir. – Me levanto. Está na hora de ir até a alameda, passar mais um dia inteiro sentado naquela maldita arvore. Eu sei, Lion, eu sei. Só não tenho escolha.
-E sabe qual é o pior, pai? – Lion se levantou. Droga, ele está chorando de novo... – O pior é que não consigo parar de pensar que você poderia ter sido um bom pai! Não sei porque, mas sinto isso. O que é que há, pai? Por que você é assim, tão desumano?
Tomo uma golada de vinho e saio de casa deixando meu filho sozinho e sem resposta. Resposta essa que, na verdade, é simples, Lion: Eu matei 11 homens e perdi as duas mulheres que um dia amei. Precisa ficar repetindo isso pra mim toda vez que nos encontramos? Aceno para meus antigos pais, agora apenas meus vizinhos, e volto a andar. Bem, de certo eu deveria ter feito a barba. Mas para que?
Chego à maldita arvore. Nada mudou. As famílias continuam passeando por ali com a mesma calma de 23 anos atrás. As folhas secas continuam caindo em uma chuva de morte, e o tapete laranja continua lindo como sempre. O campo de flores também está belíssimo esse ano. Se eu pudesse arrancar essa maldita cicatriz de meu rosto e voltar a sentir os cheiros e os gostos que costumava amar tanto, tenho certeza de que o ar conservaria aquele frescor e aroma agradável do qual, agora, já não me lembro mais qual era, e que o vento continuaria a gotejar aquele mesmo gosto doce de outrora. Mas agora, o único cheiro que sinto é o do sangue que, desde os 11 homens, nunca saiu de meu nariz, e o único gosto que toca minha boca é o do álcool.
Dois pés pararam na minha frente. Eu estou fitando eles, não sei por quê. Devo estar bêbado. Se não estivesse, me levantaria na hora surpreso, mas eu estou bêbado, então não faz diferença. Eu sei quem é o dono desses pés. Sei por causa da pele, branca como a neve, suave e cheia de cicatrizes. Não vou perguntar se ela passou bem. Certamente, está tão mal quanto eu.
-Will? – Ela pergunta.
-Lia. – Respondo.
Olho para cima. Lá está ela, tapando o sol. Seus cabelos voltaram a crescer e agora balançam sob a brisa gelada. Uma faixa médica cobre seus olhos. Ela está cega. Maldição. Porém, um sorriso enorme está estampado em sua face. Nunca pensei que veria este sorriso de novo. Seu corpo está cheio de cicatrizes. Ela se agacha e se senta ao meu lado.
-Como tem passado? – Pergunta com doçura.
-Se pudesse me ver, não me reconheceria. – Respondo – Acho que estou exatamente igual ao Will de 23 anos atrás, com a camisa no rosto e o corpo coberto de sangue.
Não consigo evitar uma boa risada. Maldita bebida.
-Que bom, né? Se você tivesse mudado, não estaria mais aqui.
Agora estamos em silêncio. Posso ver que Lia não usou mais nenhuma benção. Sua personalidade voltou a ser como era antes de perder sua memória. A primeira coisa boa que me acontece em 18 anos, desde que o Lion nasceu.
-E a Sally? – Lia pergunta. Droga, por que tinha que perguntar isso?
-Morta.
-Vocês tiveram um filho, não?
-Lion. Saiu da prisão hoje. E você, como está?
-Em comparação a você, acho até que estou indo bem. – Ela ri – perdi a visão e um monte de órgãos durante as experiências. Usei tanto a benção de cura para não morrer que, se não me liberassem, eu me suicidaria. Olha aqui...
Ela me estende o braço. Três cortes horrendos nos pulsos. Melhor parar de olhar para não vomitar.
-Parece que o final feliz chegou, não? Finalmente nos encontramos. – Eu concluo, depois de muito silêncio. Realmente, um final feliz. A partir de agora, ficaremos juntos para sempre!
Conta outra.
Essa foi a pior piada que já fiz na vida... Melhor ir embora.
-Bem, foi bom te ver, minha querida Lia. Acho que agora já posso ir me enforcar. – Será que ela percebeu que estou falando sério? Ela está sorrindo... Mas que diabos?
-Antes de ir, eu tenho um presente para você, Will. – Lia diz. – Um presente para compensar tudo o que aconteceu todo esse tempo.
-E o que seria este presente? – Pergunto. Tem que ser muito bom, então, se for para compensar a droga de minha vida.
-A terceira benção.
A terceira benção? Mas só me lembro de duas... A benção do esquecimento e a benção da cura. O que diabos ela quer dizer com isso?
-A terceira benção, ou benção da reescrita. Com ela, posso apagar tudo o que aconteceu durante esses 23 anos, Will.
-Mas que diabos! – Exclamo. Que absurdo! É completamente insano!
-Na verdade, a terceira benção é apenas uma extensão da primeira. Eu posso apagar a memória do mundo, Will. Apagar a memória de todo o universo. É simples. Eu reescrevo toda a sua vida. Você vai voltar muito, muito tempo atrás, até o momento em que tudo começou, e vai me deixar ser espancada por aqueles quatro garotos. Eu nunca vou te conhecer e você nunca vai me conhecer. Nossa vida vai ser completamente diferente. Vai ser melhor para os dois.
-E qual é o pagamento? – Claro que esse é um fato muito importante. Uma grande benção deve necessitar um enorme pagamento. Porém, Lia apenas sorriu para mim. Um sorriso brincalhão e meio idiota. Lia não envelhecera quase nada... Eu, por outro lado...
-Não é óbvio, Will? Reescrever a vida de alguém é, na prática, apagar a memória de todos os seres do planeta terra. Eu não irei reescrever apenas a sua vida. Todo mundo terá um outro futuro. Tudo vai ser diferente. Há pessoas que vão deixar de existir.
Lion... Se o futuro for reescrito, Lion não será mais meu filho. Lion vai deixar de existir. Ele é um garoto ótimo... Apenas rebelde, e por culpa minha. Eu estraguei sua vida. Eu estraguei a vida de Sally. Eu estraguei minha própria vida. Reescrever não me parece uma má idéia... Porém, para isso, eu terei de abrir mão de tudo o que nós passamos juntos, eu e a Lia. Abrir mão de todos os sentimentos que conquistamos juntos, e de tudo o que nos fez mais fortes. E abrir mão do Lion...
-Tudo bem... Mas com uma condição. – Sim, de uma coisa não posso abrir mão. – Não apague minhas memórias.
Lia se surpreende. Porém, depois de pensar um pouco, ela aceita a condição.
-No entanto Will, sério – Ela começa. Parece prestes a chorar. – Não me salve. Ignore-me. Não cometa o mesmo erro duas vezes!
Faço que sim com a cabeça. Não, não vou fazer isso de novo. Um futuro com Lia significa dor e sofrimento para todo mundo. Vai doer muito, mas vou ignorar.
-Pode reescrever, Lia.
Ela tocou na minha cabeça e agora começa a benção. Uma luz branco-violeta inunda o mundo inteiro, e eu vejo, ao meu redor, todas as pessoas que conquistaram coisas boas na vida perdendo tudo aquilo que com muito suor fora obtido. E entre estas pessoas, eu vejo Lion. Aproximo-me dele devagar, toco seu rosto e encosto minha testa à sua. Eu estou voltando. Agora voltei a ter quinze anos. Sou menor que meu próprio filho... Que vergonha! Eu peço desculpas por tudo. E digo que amo ele. Digo que amo muito ele. E ele se esvai como areia. A luz violeta vai desaparecendo aos poucos, e de repente, 23 anos da vida de mais de sete bilhões de pessoas são apagados completamente da face da terra.
O outono dança bucólico e silencioso sob minha pacata cidade natal. As folhas alaranjadas se despregam das árvores e repousam no chão com calma, dando vida, assim, ao formoso tapete de folhas mortas que decora a alameda pela qual eu ando de bicicleta. O vento é frio e bate com força em minha face. Famílias passeiam por aqui, sob este claro céu azul, observando as folhas caírem como lágrimas e respirando com prazer o frio ar bucólico de nossa cidade.
Eu vou pedalando assim, alegre e em paz, até que a cena que vejo à distância me chama a atenção. Quatro garotos estão espancando algo, provavelmente um gato.
Não, não é um gato.
É Lia.
Chego mais perto para dar uma olhada. Os olhos dela fitam o vazio, inexpressivos. Sua pele, mesmo suja de lama e sangue, é a pele mais bonita do mundo. Seus cabelos negros, os mais negros e mais sedosos do mundo. Por um instante, me pego a ponto de bater nos agressores. Porém, me retenho e volto a pedalar. Pesadas lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto me afasto cada vez mais de um futuro terrível.
Um pouco mais adiante eu avisto Sally. Como é bom ver uma Sally sorridente e altiva, ao invés daquela mulher deprimida e infeliz do meu futuro negro. Paro a bicicleta e vou cumprimentá-la.
-Sally!
-Will, você está chorando? – Ela pergunta. Ah é, esqueci de limpar minhas lágrimas... Parece que Lia apenas manteve minhas memórias. Apesar de lembrar ter vivido por 35 anos, continuo tendo a maturidade de 15. – O que aconteceu?
-Nada não Sally – Respondo. – Foi só um sonho esquisito.
-Me conta, vai!
Que droga... Não consigo abandonar a idéia de que devia voltar e salvar a Lia. Mas não posso. O futuro vai ser uma droga se eu fizer isso. Mas ainda assim, só de pensar em como Lia deve estar ferida...
-Sally, se para ficar com alguém que você gosta muito tivesse de sacrificar a felicidade de um monte de pessoas que você ama, ainda assim, você ficaria com essa pessoa? – Pergunto. Que besteira. Claro que ela vai dizer que sim. – Você conseguiria causar o mal para tanta gente?
-Claro que não, Will. – Ela me responde com suavidade, como se fosse uma mãe ou uma irmã mais velha. Eu realmente me surpreendo. – Eu ficaria com essa pessoa, pois se eu estivesse com ela, teria a força o suficiente para não deixar que ninguém se machucasse.
Aquelas palavras tocam o mais profundo de meu ser. O amor... Não ser capaz de ficar longe daquela pessoa. Sim, essa é a resposta. Eu agradeço a Sally e corro de volta para a maldita arvore.
Minha cara Lia de 35 anos, se você estivesse aqui, certamente me repreenderia. Saiba que, quando cheguei a arvore, te achei chorando, coberta de sangue, porém sem nenhum arranhão. Não fui rápido o suficiente para parar o espancamento. Porém, tomei seu corpo trêmulo nos meus braços e fiquei assim por horas. Lia de 35 anos, eu te amo. E te amando, não posso viver sem você. Passarei por maus bocados de novo, eu sei. Terei que matar talvez até mais de 11 pessoas. Mas dessa vez eu não vou voltar para casa. Dessa vez não vou pegar aquele trem. Dessa vez, eu vou fazer as coisas de um modo que ninguém se machuque. Sim, eu sei que a Lia que estou carregando neste momento não tem nenhuma emoção. Tudo o que criamos em 20 anos sumiu. Porém, eu vou criar tudo de novo, e certamente vou te fazer feliz sem machucar ninguém. Sei que tenho forçar para isso, afinal, estou junto a ti.
Minha cara Sally de 33 anos, época em que morreste. Desculpe-me por tudo que te fiz. Juro que nunca mais vou aparecer na sua frente neste novo futuro. Eu só te trago dor e ciúmes, então farei meu futuro bem longe de ti. Mas quero que saibas que não vai ser fácil, afinal, eu realmente gosto de você. Você é a melhor amiga que já tive em toda minha vida. Muito obrigado.
Meu caro Lion, o filho mais inteligente e de bom caráter que já tive e já terei em toda minha vida. Não tenho nem palavras para descrever o quão mal me sinto por ter te dado a criação que te dei. Se eu pudesse refazer tudo, tenho certeza de que você seria o homem mais admirável do mundo todo. Mais quero que entenda: Eu não posso refazer tudo. Os erros que cometi serão erros para sempre. Se te feri e se feri a Sally, eu os feri seja em qual futuro for. Porém, Lion querido, quero que entendas que é por te amar que te apaguei do mundo. Acha que eu não sabia dos homens que estavam indo te matar naquele mesmo dia? Meu querido Lion, eu estava falando sério quando disse que te amava. Minhas sinceras desculpas.
E por fim, aqui vou eu, novamente rastejando pela imensidão dos campos de trigo. Eu posso sentir de novo o caloroso cheiro do outono. Na minha boca, o doce do vento se torna real. Eu estou vivo de novo, e ao meu lado, há um anjo. É egoísta. Não é natural. É triste. Mas essas são, certamente, as duas vidas que um homem pode ter.
FIM

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