WILL
Uma estrada de vento e sangue
-Mesa para dois, por favor. – Requisitei ao garçom.
-Não fumantes, não é?
-Sim.
Eu e Lia estávamos em um dos maiores restaurantes da vila próxima ao lugar onde fomos atacados. Mesmo sendo um dos maiores, não era tão bom assim, e nem tão caro. A vila era muito pequena mesmo. Porém, era agradável e bonito, o restaurante. O garçom nos proporcionou um ótimo lugar à varanda, de onde podíamos ver os campos de trigo e a formosa lua que iluminava toda vila. Pedimos refrigerantes e sopa para jantar.
Havia passado um dia desde que acordei naquele quarto de hotel barato. Assim que terminamos de nos abraçar, decidimos abandonar o local para não sermos capturados. Dormimos escondidos nos campos de trigo e, de manhã cedo, compramos roupas e perucas novas para disfarces. Apenas Sally continuou como estava, já que ninguém havia a visto. Dessa vez, os disfarces ficaram até melhores do que da ultima, por isso nos arriscamos a passar o dia planejando a viagem e à noite, jantar em um bom restaurante.
Além disso, Lia continuava sofrendo muito por causa do pagamento pela benção. A tristeza que a afligia, apesar de ser infundada, era verdadeira e podia atrapalhar os planos. Portanto, Sally decidiu que era melhor animar ela em um bom restaurante para continuar com o procedimento, e por isso estávamos ali. Tomei um gole do refrigerante enquanto olhava para os óculos escuros e os cabelos loiros de Lia. Por trás daqueles óculos, havia o mais lindo olho já visto por qualquer ser humano, mesmo que vermelhos de tanto chorar e mesmo que deles nenhuma emoção se pudesse tirar. E por trás daqueles comuns cabelos loiros, escondia-se o mais lindo e mais sedoso cabelo negro da face da terra, mesmo que curto por causa do corte e bagunçado por causa da fuga. Tomei outro gole.
-A propósito, Lia, quantas bençãos você tem? – Perguntei, tentando puxar assunto.
-Três. – Ela me respondeu, inexpressiva, mas parecendo pensar sobre algo.
-Três? E qual é a terceira? – Eu perguntei, porém ela não me respondeu.
Uma brisa gelada adentrou o restaurante. Senti o cheiro do outono preencher minhas narinas e o seu doce molhar meus lábios. Suspirei e sorri.
-Will... Por que você fica assim? – Lia perguntou com a voz doce que aprendera a ter.
-É o vento, Lia. Você não pode sentir? O doce gosto do vento, o frio que aquece e o cheiro do outono! É minha estação favorita! – Dissertei. Lia sorriu. Quase cai da cadeira.
-Lia, o que foi isso? Você sorriu? – Exclamei, chamando atenção de outros clientes. Desculpei-me e voltei à conversa.
-Sally me ensinou que se deve sorrir quando se está feliz. Felicidade é quando você tem alguma coisa que goste perto de você. É bonito, não é Will? – Ela perguntou.
Era impressionante o tipo de pessoa que Lia havia se tornado em tão pouco tempo. Recostei-me na cadeira e pensei um pouco sobre isso. Apesar de ainda ser um tanto fria e inexpressiva em assuntos sérios, a doçura de sua voz e a tranqüilidade de seu semblante eram cada vez mais freqüentes. Talvez ela estivesse recobrando, aos poucos, as emoções e a personalidade que perdera por usar tantas vezes a benção do esquecimento. Felizmente, eu havia a proibido de usá-la de novo. A benção da cura, alertei-a de que só usasse em casos extremos. Finalmente parecia que as coisas iriam dar certo, e que o futuro ia ser mais pacifico e feliz. E nós, de certa forma, merecíamos isso. As dores pelas quais passamos, os terrores, as incertezas, tudo isso foi demais. Eu estava cansado, e Lia também, pois provavelmente vivera muito mais dores do que eu até ali. Só então notei que nada sabia sobre o passado de Lia. Decidi perguntar.
-Lia, antes de me conhecer, onde você morava?
-Não sei. – Ela respondeu e, depois de um tempo, acrescentou - Esqueci.
-Ah, é claro... – Resmunguei. Ela perdeu as memórias. Como sou idiota!
Fez-se silêncio mais uma vez. Aquilo já estava ficando embaraçoso. Felizmente, Lia quebrou o silêncio. Felizmente... Ou infelizmente.
-Will, você conseguiria viver sem mim? – Ela disse, hesitante.
Meu coração pulou de hesitação e vergonha. Aquele era um assunto extremamente sentimental, e eu não estava acostumado com isso... O que deveria responder? Nada vinha a minha mente. Será que deveria tentar parecer legal? Mas não... Espere um pouco... Eu queria pegar a Lia? Não... Ou será que sim?
-Bem, eu não sei... Por enquanto nós temos que viver juntos, né? Não temos escolha... – E isso foi tudo que consegui pensar. Lia suspirou.
-Quando eu perguntei a Sally o que era gostar de alguém, ela disse que era querer muito ficar com essa pessoa. Mas você disse outra coisa Will. – Lia constatou. – E quando falei o que você disse a Sally, ela disse que na verdade isso era amor.
-Tecnicamente... – Eu balbuciei. Que ridículo! Era o máximo que eu conseguia falar?
-Então, tecnicamente a gente se gosta, correto? Mas não se ama. E suponho que isso seja bom. – Ela disse, nem inexpressiva, nem eloqüente.
Naquele momento, jurei que iria matar Sally assim que visse ela da próxima vez. Como ela podia ficar dizendo aquelas coisas a Lia? Outra coisa que me surpreendeu foi a sinceridade da garota. Lia, que sempre fora tão inflexível e sem emoção, estava pondo suas duvidas e vergonhas para fora... Ela era forte, pensei. Ia dizer que era melhor esquecer tudo aquilo, porém, antes que as palavras saíssem de minha boca, Lia concluiu sem emoção na voz:
-Então, Will, devemos nos beijar.
Levantei de súbito da cadeira e gritei de surpresa. Todos do restaurante olharam para a gente de novo. Desculpei-me novamente e sussurrei para Lia:
-Foi Sally que te contou isso também? Droga, aquela miserável... Esquece, Lia! Nós não devemos nos beijar. É uma coisa muito feia e... Infantil! – Falei rispidamente. Acrescentei: – E nojenta!
De certo, nenhuma das minhas palavras foram verdadeiras, e passei o resto do jantar imaginando o que teria acontecido se eu aceitasse. Meu coração palpitava. As sensações vinham de toda a parte: Da beleza da lua, do doce gosto do vento de outono, da doce visão dos lábios umedecidos pelo batom de Lia, da sua pele fina, sedosa e tão branca... O resto da noite no restaurante, passamos conversando sobre diversos assuntos. Cada vez mais Lia ia perdendo a carapaça inflexível e adquirindo sua antiga e desconhecida personalidade. Ainda estava muito longe de recuperá-la por completo, é claro, mas já era um começo. Pagamos a conta com o dinheiro que minha mãe nos dera e saímos do restaurante à meia noite.
Marcamos com Sally para nos encontrar na praça principal exatamente às 12:10 e estávamos nos dirigindo para lá quando Lia sussurrou:
-Will, tem alguém vigiando o fim desta rua. Vamos pegar outro caminho.
Fiz que sim com a cabeça e entramos em uma viela. Aquelas coisas estavam ficando tão freqüentes atualmente que eu já era capaz de encará-las com frieza e com a mesma inexpressividade característica de Lia. Percorremos mais algumas ruas até chegar a praça.
A praça era ampla e possuía, em seu centro, uma fonte de onde não saia água. Ficamos espreitando de trás de uma árvore, apesar do ponto de encontro ser o centro da praça. Como a hora marcada era 12:10, não fazia sentido ficar vulnerável no meio de um local tão aberto antes da hora. Ainda faltavam cinco minutos para a hora do encontro, e ficamos a conversar baixinho enquanto isso.
-Lia, quando voltarmos para casa, daqui a um ano, você será capaz de trazer de volta as memórias de meus pais? – Perguntei com suavidade. Lia fez que sim com a cabeça. – Ainda bem... Sabe, acho que nós nos conhecermos nem foi uma coisa ruim ao todo. Acho até que foi bom... Muito bom. Nós vamos nos esconder por um ano, viver sem escola, e depois tudo vai voltar a ser como antes.
-Apesar de tudo o que aconteceu, tempos melhores virão. Qual o nome disso, Will? – Lia perguntou, olhando nos meus olhos através de seus óculos escuros. Tirei-os, revelando dois mundos inteiramente azuis e brilhantes, rodeados por uma vermelhidão que até que lhe caia bem.
-Esperança, Lia. É quando há tristeza, mas depois dela, há felicidade.
-Eu acho que gosto... Não, amo a esperança. Não sei se viveria sem ela. – Lia constatou.
-Ninguém vive sem ela, Lia. Ninguém.
Assim que o horário marcado chegou, dirigimo-nos para o meio da praça. A noite estava silenciosa, e a lua, escondida. O vento era frio e forte, cheirava a outono e tinha aquele velho e tão saboroso doce em seus ares. Sentei-me na fonte e fiquei a observar as estrelas. Lia estava de pé, e também as observava junto a mim.
-Will...
-Que foi, Lia?
-Sabe... Acho que na verdade, eu não gosto de você.
-Do que você está falando? – Eu rí, apesar de meu peito estar queimando. Já sabia o que viria a seguir. As palavras mais doces, mais completas e mais lindas do mundo. A verdadeira felicidade. Algo tão intenso e tão prazeroso que se tornaria impossivel de aqui descrever.
-Will, eu acho que amo...
Neste exato momento, duas coisas aconteceram. A lua transpassou as nuvens em um clarão tão intenso quanto os olhos de Lia, e três tiros ecoaram na placidez da praça. Três tiros que acertaram como flechas o busto de Lia. Seus cabelos curtos escorreram no ar por causa da queda. Sua mão se estendia para o céu. Era lindo... E aterrorizante.
-Lia! – Gritei com toda a força que um grito poderia ter. Agarrei-a em meus braços e corri em direção a uma das vielas que saia da praça. Uma chuva de tiros percorreu a noite a procura de minha carne. Nenhum deles me encontrou, entretanto, pois eu estava mais rápido que o vento e mais obtuso do que a noite. Eu carregava, nos meus braços, a menina que eu amava.
-Lia, use a benção, rápido! – Insisti.
Uma luz branco-azulada inundou a noite e toda a vila. Quando se desfez, havia apenas sangue sob o corpo de Lia, mas nenhum sinal de perfurações. Um grito aterrorizante, entretanto, brotou de suas cordas vocais. O grito mais intenso e mais triste que já vi na minha vida. As lágrimas começaram a derramar de seus olhos e seu corpo tremia como se estivesse em convulsões. Embora eu quisesse confortá-la, as circunstâncias não me permitiam. Sob a luz da noite e o vento de outono, quatro homens de preto cercaram a rua. Levantei-me, deixando Lia sozinha no frio e na rigidez do chão, para lutar.
O primeiro homem veio correndo e derrubei-o com um poderoso chute no rosto. A ira estava presente em cada átomo de meu corpo. O segundo homem avançou em mim, enquanto o terceiro apontava uma pistola. Corri para cima do segundo homem e encravei minha adaga em seu busto. Ele caiu imóvel enquanto um tiro me atingia o braço esquerdo. A dor era intensa, porém, ainda assim, arremessei a faca no homem armado e ela penetrou com facilidade em sua testa. Só restava mais um homem, onde estava? Em lugar nenhum. Tão pouco Lia.
Corri para a praça a procura de minha amiga, porém lá só vi um vulto alto e forte sentado na fonte. Ele olhava para mim com olhos cheios de raiva e ódio.
-Lembra de mim, pirralho? – Perguntou com uma voz tão grossa e tão aterradora que eu me arrepiei.
Olhei-o com mais atenção. Vi suas feições arrogantes e seus músculos poderosos, mas nenhum deles me contou mais sobre aquela pessoa do que um grande ferimento em sua perna. Era o homem do riacho que tentara me afogar e que eu não matei por medo. Foi ele! Ele deve ter visto Sally naquele dia e capturado ela enquanto eu e Lia jantávamos! Apertei o punho contra minha adaga. Meu braço esquerdo doía como o inferno, porém nada era mais intenso do que minha vontade de matar aquele homem.
Ele foi o primeiro a atacar: Avançou até mim mancando e com um facão empunhado, e tentou me cortar em um corte horizontal, do qual desviei sem muitos problemas. No mesmo instante, a fonte começou a jorrar água. Tentei uma estocada, porém ele defendeu com tanta força que fui forçado a soltar a minha faca. Ele agarrou minha mão e levantou seu facão, pronto para encravá-lo em minhas costas. Eu, porém, chutei-lhe a face e ele caiu. Pisei com força na sua mão e ele soltou o facão, tendo, em contrapartida, agarrado meu pé com a outra e me derrubado junto a ele. No chão, era uma batalha perdida. Ele logo me imobilizou e me levantou. O que queria com isso? Não demorei muito a descobrir. O homem me levou até a fonte, agora com água, e lançou minha cabeça contra o chão de pedra. A cena era igual à anterior: eu estava me afogando. Minha adaga e o facão do homem estavam longe demais para que eu pegasse. O barulho do afogamento era intenso e ensurdecedor. Só havia uma coisa a se fazer, pensei. E depois parei de me mexer.
O homem esperou mais cinco segundos com minha cabeça n’água e depois me lançou contra o chão.
-Isso é para você aprender, pirralho, a matar alguém quando se tem a chance. – Ele cuspiu palavras com ódio.
O homem se dirigiu até o lugar onde estava seu facão e se abaixou para pegá-lo. Antes que o fizesse, porém, eu me levantei, peguei minha adaga e parti para o ataque. Eu não havia morrido: Apenas fingira me afogar para que ele me largasse. Enfiei minha adaga o mais profundo possível nas costas do homem. Porém, não foi o suficiente. Ele se virou e me fez um corte horizontal no nariz. Recuei cambaleando, com o rosto completamente ensangüentado. O homem também não estava em suas melhores condições, entretanto. Ele se levantou, pegou o seu facão e mancou até onde eu estava. Tentou uma estocada no meu peito. Porém, com a maior frieza possível, desviei com precisão do ataque e bati no cabo de minha adaga semi-encravada em suas costas. A lâmina penetrou completamente no homem e ele parou de se mexer.
Tirei minha camiseta e amarrei-a no meu rosto para tentar conter o sangramento do nariz. Meu braço esquerdo também doía demasiadamente, mas tentei não pensar muito nisso na hora. Lia precisava de mim. Retirei a adaga do corpo morto do homem que um dia eu deveria ter matado, peguei a pistola do homem que matei antes daquela luta e corri para a rua principal.
Lá estava Sally, nas costas de um homem de preto, rodeada por mais quatro deles, sendo que dois estavam armados. Eles pareciam estar esperando a carona de um carro no passeio. Mirei em um dos homens armados e atirei em sua mão. Ele largou a arma e caiu, e logo os outros começaram a se movimentar. Antes que eu pudesse atirar no outro, porém, dois tiros acertaram minha perna direita. Rolei para um beco e mirei novamente. Com dois tiros nos ombros, o homem caiu. Os outros três não tinham armas de fogo, porém dois estavam na posse de cassetetes. Cambaleei em direção a eles com um tiro no braço esquerdo, dois na perna direita e um corte intenso na face. Eu estava de calça, e a camisa que deveria estar cobrindo meu corpo estancava um sangramento intenso. Tinha matado quatro homens em menos de meia hora, e ainda assim, meu sangue ardia com ódio e adrenalina.
O primeiro homem tentou me acertar com um golpe horizontal do qual desviei me agachando. Acertei um poderoso soco nas partes íntimas do algoz e ele caiu fora de combate. O segundo, porém, velozmente me acertou as costas com o cacete. Minha visão se entorpeceu por um momento, porém por reflexo me virei e arremessei minha adaga contra seu busto. Ele caiu imóvel. “Estou ficando bom nisso”, pensei. Agora só faltava um homem, e ele estava desarmado. Este, porém, preferiu soltar sua carga humana e fugir do que enfrentar aquele demônio em forma de criança que se chamava Will.
Eu corri até Sally e desamarrei as cordas que a prendiam. Ela estava acordada. Tirei a fita que a impedia de falar e, imediatamente, ela me beijou a boca. O beijo tinha gosto de sangue e de morte, e eu a fitei com frieza após seu término. Seus olhos castanhos estavam embrumados como a névoa matinal e brilhavam sob a luz da lua. Ela me olhava cheia de pena, tristeza e melancolia.
-Acabou, não é Will? Agora acabou mesmo, né?
-Eu ainda tenho algo para fazer. – Respondi inexpressivo e soltei-a no chão.
-Por que Will? – Sally começou a chorar. – Se você continuar, não vai mais poder voltar. Você vai se arrepender, Will!
-Eu já estou arrependido.
Corri o mais rápido que pude a procura do campo. Sim, eu sabia onde Lia estava. Ela estava no campo de trigo, esperando um helicóptero para levá-la a um centro de pesquisas científicas. Eles iriam cortar ela, tirar os órgãos dela, fazer milhões de exames até descobrir que, na verdade, ela era uma garota normal. Nesse exato momento, eu já havia percebido no que me tornara. Um homem frio, calculista e assassino. Inexpressivo que nem Lia, porém por motivos diferentes. Ela era inexpressiva pois tinha perdido suas memórias. Eu era inexpressivo pois tinha matado sete homens, e ainda havia de matar mais. Cheguei ao campo de trigo. Havia dez homens dessa vez, todos portando facas ou bastões. Lia estava amarrada nas costas de um deles. Engoli seco.
Uma brisa fria de outono abateu meu corpo e toda imensidão do campo. Ela não sumiu, e continuou a nos refrescar por longos e longos segundos. Eu estava frio e inexpressivo, pois na brisa não havia mais o cálido cheiro de outono, ou o doce gosto de sangue. O corte no meu rosto acabou para sempre com minha capacidade de sentir cheiros. Com minha capacidade de viver. Nunca mais eu haveria de sentir o frescor daqueles ares, ou sentir outro gosto senão o de sangue. E se Lia me curasse... Não, aquilo não ia acontecer. Era impossível que eu conseguisse derrotar tantos homens. Eu iria morrer. Era meu fim.
Corri para o ataque. Ignorei a dor arrasadora e mortífera causada pelos dois tiros na perna e corri o mais rápido que pude. Pareceu uma eternidade o tempo para percorrer o espaço entre mim e os algozes finais. Encravei minha adaga no peito do primeiro, que conseguiu, com sua faca, cortar de leve meu braço. Um morto. Em seguida, defendi um ataque do segundo e cortei-lhe o pescoço. Dois. O terceiro me acertou com seu cassetete nas costas e eu caí no chão. Logo em seguida, o quarto me chutou. Em um esforço sobre-humano, levantei-me e matei os dois em um corte. Três, quatro mortos. Dei um passo em direção ao quinto, porém minha perna cedeu e eu caí. Uma seqüência de dezenas de golpes e chutes provenientes dos homens restantes me fizera quase perder a consciência. Era o fim.
De repente, no entanto, os chutes e as cacetadas pararam. Ouvi o som de dois corpos caindo no chão. Cinco, seis mortos. Era Sally com minha adaga em suas mãos. Logo ela caiu, no entanto, com um corte do sétimo. Será que estava bem? Não tinha como saber. Mais dois corpos caíram no chão. Sete, oito corpos ao total. Era Lia, ela havia se soltado. Sally se levantou e foi ajudá-la. Provavelmente o corte não foi tão profundo. Graças a deus... Nove mortos. Infelizmente, não houve sinal de um décimo.
-Lia, Lia, minha querida... Lembra de mim? – Perguntou uma voz. Lia não respondeu, e a voz continuou. – Você pode ver essa belezinha, não? Se tentar alguma coisa, morrem todos. Se vir comigo sem reclamar, deixo seus amiguinhos viverem.
O que será que estava acontecendo? Então, o décimo possuía uma arma. Realmente era o fim. Lia pediu dois minutos comigo e o homem deixou, contanto que não usasse nenhuma benção. Lia concordou e veio sentar-se perto de mim.
O vento frio de outono acariciou mais uma vez a plantação de trigo. Quando Lia tomou minha cabeça no colo e tirou a camisa que cobria minha face, senti pela ultima vez o cheiro outoniço e senti pela ultima vez o doce daquele vento nos meus lábios. Aquela era realmente a ultima vez. Eu sorri com dificuldade.
-Não se preocupe, Will. Você não vai morrer. – Lia constatou com doçura.
-Eu perdi o olfato, Lia. Não é o mesmo que morrer? Eu amo o cheiro do outono... Como posso viver sem ele? – Eu disse, meio rouco.
-Você tem amigos, Will. Faça Sally feliz. Ela ama você. E por favor, escute bem o que vou te dizer agora. – Lia suspirou. – Todo outono, vá até a sua cidade natal, e no dia exato em que nos conhecemos, sente-se sob a arvore em que você me viu pela primeira vez. Espere lá, o dia todo. Você pode fazer isso? Todo ano, sem falta?
Fiz que sim com a cabeça e Lia sorriu. Um sorriso de felicidade e de tristeza ao mesmo tempo. Concentrei-me em lembrar cada detalhe daquele momento. Da dor que percorria todo meu corpo, do vento noturno do outono arejando minha alma, dos cabelos negros de Lia, dos olhos azuis brilhantes de Lia, de sua pela branca feito a neve, das estrelas que devoravam o céu, da lua nova que iluminava a terra e, por fim, do som das hélices de um helicóptero.
-Está na hora, Lia. – Disse o homem, o último algoz.
Lia se levantou e deitou minha cabeça sob o colo de outra pessoa: Sally. Ela caminhou para longe e, sob minha visão turva, vi o maior tesouro da minha vida se afastando de mim. Eu, Sally e mais nove corpos sangrando no chão. Sob meus ombros, 11 mortes e muita destruição. O pior futuro possível. A perdição.
-Adeus Will – Lia disse e foi embora.

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