15 de abril de 2012

As três bênçãos de um anjo - II



SALLY

Por entre trens e campos


   -O que você fez com a minha mãe? – Eu gritei enquanto fitava incrédulo o corpo caído ao lado da menina de vestido branco.
   -Apaguei todas as memórias dela sobre você. Ela não vai precisar mais disso. – Lia respondeu sem emoções.
   -O que é você? – Perguntei enquanto as lágrimas escorriam pela minha face. Lia se aproximou e acariciou minha cabeça como se eu fosse um filhote.
   -Sou apenas uma garota normal. – Ela respondeu com suavidade. – Will, o que é gostar de alguém?
   -Do que você está falando? – Exclamei com severidade, empurrando-a para longe de mim. – O que diabos você quer?
   -É o preço da bênção. Ao apagar as memórias dos outros, perco minha própria memória. – Lia explicou. Eu chorava. – Mas eu anotei para não me esquecer de te perguntar. O que é gostar de alguém? Parece ser algo importante...
   Levantei de súbito. Limpei as lágrimas e andei com passos pesados para perto de Lia. Tomei-a nos braços e apertei com força, como se nunca mais fosse largar. Ela não se moveu.
   -Isso é gostar de alguém. – Soltei-a. – Agora, por favor, Lia, não use essa droga de bênção de novo.
   Eu me virei e fui até a porta de casa. Assim que toquei a maçaneta, Lia perguntou:
   -Por acaso você está irritado? – Vendo que não respondi, Lia continuou. – “Uma pessoa fica irritada quando a outra faz algo de ruim”.
   Aquilo me fez pensar... E se Lia não tivesse apagado as memórias de minha mãe? Ela teria pensado em mim a cada dia, a cada segundo de sua vida, e aquilo ia ser sofrimento demais para uma pessoa só. Provavelmente Lia apagara as memórias de meu pai também, enquanto eu e minha mãe pegávamos coisas para comer. Sem lembranças de mim, eles viveriam suas vidas com a mesma tranqüilidade e felicidade de antes, e não teriam que se preocupar comigo a cada minuto... De certa forma, era muito triste. Muito triste por esquecer-se de quem se ama, e mais triste ainda por eu ter notado que, talvez, eu nunca mais volte para casa. Mas talvez assim fosse melhor. Terminei de abrir a porta e saí, dizendo as seguintes palavras com a mesma inexistência de expressão que afligia minha amiga:
   -Não faça mais isso.
   Fomos para a estação de trem. Felizmente, os disfarces funcionaram e quase ninguém nos notou. Passamos por três dos homens de preto e eles não perceberam quem nós éramos. Aproveitei a caminhada pela cidade também para respirar pela ultima vez o doce cheiro do outono da minha cidade natal. Talvez aquela fosse a ultima vez que eu pudesse sentir aquele cheiro na vida, por isso achei melhor aproveitar bastante dele para que ficasse na minha memória para sempre. Lia deve ter me achado estranho por aquilo, mas não falou nada a respeito.
   A estação de trem estava bastante cheia, inclusive de homens de preto que, felizmente, não nos perceberam. Comprei duas passagens para o lugar mais longe que consegui e nós embarcamos imediatamente. Os trens tinham diversas cabines, cada cabine com espaço para quatro pessoas. Felizmente, na nossa cabine só haveria uma pessoa além de nós, pois, por precaução, comprei passagem para os três acentos. Quanto menos pessoas fizessem contato com eu e Lia, mais seguros estaríamos. Sentamos nos acentos e esperamos o trem partir.
   -Will? – Perguntou uma voz conhecida.
   Eu me surpreendi ao ver de quem era a voz. Ela pertencia a uma amiga minha que todo outono vinha visitar seus parentes na minha cidade. Ela se chamava Sally, e tinha cabelos castanhos que iam até os ombros e olhos negros. Ela sorriu.
   -Quem é ela? – Perguntou Lia, vendo minha reação.
   -É uma amiga minha! – Disse, e logo em seguida apresentei-as uma a outra.
   -Prazer, Lia! – Sally falou, sorrindo. Lia não se moveu.
   -Ela é tímida... Você sabe. – Expliquei, meio sem graça.
   -Will, o que houve com o seu cabelo? – Sally perguntou enquanto sentava-se. – E por que está nesse trem?
   -É uma longa história... O cabelo, acho que essa cor fica melhor em mim, e estou aqui porque vou passar um tempo na casa de Lia. – Inventei.
   -Ah, ela é sua namorada? – Sally perguntou com inocência. Eu enrubesci.
   -Claro que não! Somos só amigos, nada mais que isso!
   -É verdade, Lia? – Sally perguntou gentilmente. Lia apenas olhou para ela e fez que sim com a cabeça.
   -E você? Suponho que esteja voltando para casa. – Constatei. Sally fez que sim.
   -Will, você bota essa mala aqui em cima para mim? – Ela pediu, apontando para a sacola que estava em seu colo. Sally sempre fora pequena, e por isso não alcançava o local onde eram guardadas as malas. Na verdade, ela tinha o mesmo tamanho de Lia. Levantei-me e pus sua mala no local apropriado sem muita dificuldade.
   -Will – Chamou Lia. – Eles estão aqui.
   Olhei rapidamente para Lia e vi que ela fitava algo pela janela. Quando segui o seu olhar, avistei um helicóptero à distância.
   -Sally, acho que vou comprar algo para comer... Quer vir comigo, Lia? – Eu disse, tentando disfarçar.
   -Claro. – Lia respondeu no mesmo tom inexpressivo de sempre.
   Apesar de minha atuação ter sido lamentável, Sally não questionou nossa saída. Eu levei Lia correndo para o vagão seguinte a fim de não envolver minha amiga em qualquer eventual luta. Porém, foi justamente no vagão seguinte que havia luta. Um homem vestido completamente de preto nos esperava no corredor. Tentei escapar pela direção oposta, porém outro homem de preto já havia tapado o caminho. Estávamos cercados.
   O primeiro homem que apareceu foi também o primeiro a atacar. Ele tentou me agarrar, porém Lia se jogou em cima de mim e nós conseguimos escapar por baixo dele. Três tiros ecoaram pelo corredor até que nós conseguíssemos sair de lá. Fomos até a parte exterior do trem, onde um vagão era ligado ao outro, e subimos no telhado. O vento batia com uma força fenomenal em nossos corpos, o que fez com que as perucas voassem. Não faria diferença, afinal, eles já haviam descoberto. Talvez já tivessem descoberto desde o início, e só não fizeram nada para poder encurralar-nos no trem. Eu e Lia rastejamos a metade do telhado com cuidado, até que o helicóptero começou a atirar. Aquilo era insano. Com um impulso descuidado, corri até o fim do telhado e pulei no vagão onde Sally estava abrigada. Lia veio atrás de mim, e nós caímos com força no chão. Os passageiros haviam saído de suas cabines para ver o que estava acontecendo, o que foi bom para nós, pois assim seria mais fácil fugir. Precisávamos de um plano. Entramos na nossa cabine, fechamos a porta, abaixamos as persianas da janela e nos escondemos debaixo dos bancos. Sally não estava mais lá.
   -E agora, Lia? – Perguntei ofegando.
   -Nós temos que sair do trem. Estamos num campo de trigo, então podemos fugir da mesma forma daquele dia. – Ela respondeu inexpressiva.
   -Mas naquele dia era noite, e agora tem muita luz! Eles vão nos achar facilmente!
   -Mas o campo é de trigo, e o trigo é alto o suficiente para nos escondermos até a noite. – Ela respondeu. Era sensato. Mas como iríamos sair do trem em movimento?
   Quando eu ia perguntar isso, alguém entrou na cabine e fechou a porta. Lia olhou para mim e eu acenei. Contei até três e saí do banco – Rapidamente segurei o pé do invasor com força e derrubei-o no chão sem problemas. Ele era até leve. Leve demais. Era Sally.
   -Sally! – Exclamei enquanto ajudava-a a se levantar. Lia saiu do esconderijo ao mesmo tempo.
   -Will... O que foi isso? Eles estão atrás de vocês? – Ela perguntou. Suspirei.
   -Sim, infelizmente. Sally, saia dessa cabine como se nada tivesse acontecido e se abrigue em outra. Aqui é perigoso demais! – Alertei, porém ela fez que não com a cabeça.
   -Eu vou ajudar vocês.
   -Cale a boca! – Gritei com força. – Você não sabe com o que está se metendo. Agora vá, saia!
   -Will, deixe ela ajudar – Lia falou friamente.
   -Lia...
   -Ela pode ir até a sala de maquinas e parar o trem para que possamos descer. Sem ela, não tem como sair vivo. – Lia constatou. Pensei por um instante.
   -Logo depois disso, nós vamos deixar a Sally em paz, não é? – Perguntei. Lia fez que sim. – Então tudo bem. Sally, seria pedir demais se você fizesse o trem parar?
   -Mas como? – Ela perguntou.
   -Não se preocupe. O maquinista está acalmando os passageiros, então a sala de controle vai estar vazia. – Disse Lia.
   -Só puxe os freios – Acrescentei. – Depois saia sem ser percebida e finja que nada aconteceu.
   Sally fez que sim, meio decidida e meio infantil, e saiu corredor adentro. Eu e Lia voltamos a nos esconder embaixo dos bancos e a esperar. Demorou cerca de dez minutos até o trem dar um solavanco e Lia ser arremessada em minha direção. Nossas cabeças se chocaram com força.
   -Ai! – Exclamei com dor.
   -Desculpa.
   Saímos correndo da cabine e nos dirigimos até a área que ligava os vagões. Lia pulou na frente, rolou pelos trilhos e desapareceu na plantação de trigo. Eu apoiei meu pé no corrimão, porém, quando ia pular, algo me agarrou pelas costas.
   Era um dos homens de preto. Na mesma hora, o trem começou a andar. Desesperado, tentei me soltar, porém ele era muito mais forte que eu. Senti uma pontada de tristeza e raiva, e meus olhos esquentaram e umedeceram. Eu já estava desistindo quando um solavanco fez eu e o homem caírem do trem. A queda foi feia e nos rolamos por vários metros por causa da inércia. O homem folgou as mãos e neste momento eu me soltei. Quando levantei, vi o que acontecera: Sally havia nos empurrado para fora do trem, mas acabou caindo junto. Ela estava caída em cima do homem desmaiado e seu rosto sangrava. A frente, um poderoso e pesado trem vinha em nossa direção. Agarrei Sally pelos braços e puxei ela até a plantação. Foi rápido o bastante para escapar do trem, porém lento demais para não escutarmos o nauseante barulho de carne sendo dilacerada e o calor do sangue que espirrou em nossas costas. Aquele homem estava morto, e nós vomitávamos.
   Ficamos chorando de medo um nos braços do outro por longos minutos, até que Lia nos encontrou no meio do emaranhado de trigo. Ela puxou nossas camisas e disse que devíamos sair logo dali, pois era muito próximo dos trilhos e seriamos pegos com facilidade. Enxugamos as lágrimas e começamos a rastejar.
   Rastejamos por cerca de duas horas, porém devagar para não sermos percebidos pelos movimentos e em pausas freqüentes para não cansar. Só paramos quando deixamos de ouvir o barulho do helicóptero e encontramos uma arvore com sombra para descansar. Lia disse que iríamos esperar até a noite para poder voltar a rastejar e que devíamos falar baixo, pois provavelmente aquele campo estava infestado de agentes a procura de nós. Eu e Sally ficamos a conversar enquanto Lia ia buscar água em um riacho próximo.
   -Eles não te viram. Sendo assim, você pode voltar a sua vida normal assim que chegarmos a algum lugar. – Constatei.
   -Mas porque vocês estão sendo perseguidos? – Sally perguntou.
   -É melhor que você não saiba. – Respondi friamente. Para aliviar o clima tenso, acrescentei, com uma expressão brincalhona: - Sério mesmo, melhor você não saber!
   Sally riu e nós ficamos a conversar por mais algum tempo até Lia chegar com a água. Limpamos nossos ferimentos e bebemos um pouco, e depois discutimos sobre o que iríamos fazer a seguir. Após meia hora de discussão, decidimos que iríamos seguir os trilhos do trem até a próxima vila e pegar um ônibus até a cidade grande onde Sally morava. Eu e Lia nos esconderíamos lá por cerca de um ano, e depois voltaríamos para casa. Aquela discussão me aliviou muito. Até aquele momento, nada era certo acerca do futuro. Queríamos apenas fugir e estar o mais longe possível daquela cidade infestada de homens de preto. Porém, agora tínhamos planos e parecia que tudo ia dar certo. De certa forma, era reconfortante e quente como o anoitecer em um campo de trigo no outono.
   Assim que o sol se pôs, com a terra ainda iluminada por resquícios de luz, Lia ordenou que eu fosse buscar um pouco de água para a viagem. Felizmente eu me lembrei de trazer cantis de água de casa, e era com eles que iríamos sobreviver. A ida até o lago, rastejando, levava cinco minutos. Cheguei nele e comecei a encher e assobiar. Depois de cheios, me levantei para amarrá-los na cintura. Porém, antes de concluída a ação, algo agarrou minhas pernas e me derrubou na água.
   Dois braços fortes empurravam minha cabeça contra o fundo do lago, enquanto um corpo pesado me impedia de levantar. Eu estava desesperado: Me debatia e tentava me levantar com um esforço imenso, porém sem resultados. Logo comecei a perder o fôlego. Onde estava Lia? Não, ela não podia me ajudar. Minha morte estava sendo muito barulhenta para mim, de dentro d’água, ouvindo as bolhas estourando como se fossem bombas e meus gritos abafados como um grande grito de uma baleia. Porém, do lado de fora não havia barulho algum a não ser o dos insetos e do vento. Minha boca tinha gosto de areia e de um pouco de sangue. Num ultimo esforço, apalpei minhas calças e de lá tirei uma adaga que trouxera por precaução. Enfiei-a com força na perna do meu agressor e ele folgou por um momento, o bastante para eu derrubá-lo e me levantar. Imediatamente pulei em cima dele e levantei a faca, pronto para um ataque mortal em seu pescoço. Porém, no pior momento possível, notei que eu nunca tinha matado ninguém antes, e notei também o quão aterrador era aquilo. Não consegui matá-lo. Saí de cima dele e deixei-o sangrando com um simples ferimento na coxa.
   Mal havia meu corpo se recuperado do choque quando encontrei, na arvore, Lia lutando para se libertar de um dos homens de preto. Sally estava caída, inconsciente. Corri para cima do homem, pulei em suas costas e, com o cabo da adaga, bati duas vezes na sua nuca. Não foi o suficiente para fazê-lo cair, porém foi o bastante para lia se soltar. O homem levou dois segundos para se recuperar e me projetar por cima de suas costas. Eu caí com um estrondo no chão, cortando minha barriga com a própria adaga. O corte foi fundo. Minha visão se entorpecia. Eu estava perdendo muito sangue e tinha batido feio a cabeça. Por entre minha vista turva, eu via Lia se debater com força para escapar das garras daquele homem asqueroso. De repente, não sei como, Lia se soltou e agarrou a cabeça do homem com uma das mãos. A mesma luz dourada que vi na minha casa inundou todo o campo de trigo em um instante. Com um doloroso e mortal esforço, me levantei.
   -Lia... Não! – Caminhei com dificuldade e sem saber direito para onde estava indo. Finalmente, achei o que queria, e tomei a mão de Lia nas minhas. – Não quero que você esqueça de mais nada. – Falei.
   Atendendo ao meu pedido, a luz desapareceu aos poucos. Assim que se foi por completo, caí no chão exausto. Antes de desmaiar, porém, com um ultimo grande esforço, me arrastei até o homem de preto e encravei a minha adaga o mais fundo que pude em seu peito. Eu estava exausto. Eu estava quase morto. Eu estava desesperado. Porém, nada disso muda o mais triste e mais vergonhoso fato de minha vida.
   Eu matei um homem.

   Acordei de supetão. Eu estava deitado em uma cama que fez muito barulho quando me sentei. O quarto onde me encontrava era velho e cheirava a mofo. Havia uma janela pela qual via o brilhante céu noturno. Fora isso, estava tudo escuro. Sally estava deitada do meu lado, coberta e dormindo profundamente. No canto do quarto, Lia estava sentada, com os olhos azuis intensos me fitando, cheios de água. Surpreendi-me.
   -Lia, você está chorando... – De repente, lembrei-me de tudo o que acontecera. Tirei a camisa com pressa e, afobado, percebi que não restara nada do ferimento daquela hora, nem sequer uma cicatriz. – Mas o que diabos...
   -É o preço da segunda benção – Lia disse, aos prantos. – A benção da cura. Ela tem o poder de curar qualquer ferimento, porém abre outro. Outro muito maior, bem aqui dentro – Ela apontava para o peito. Mais precisamente, para seu coração. Ainda mais precisamente, para sua alma.
   -Vem cá, Lia. – Disse, depois de passar muito tempo atônito.
   Ao se aproximar, notei o quão vermelhos estavam os olhos de Lia. Vermelhos como brasa. Ela chorara muito aquela noite. Fiz ela sentar na cama e acariciei seus cabelos com leveza.
   -Lia, o que é se irritar? – Perguntei com calma.
   -Quando alguém faz algo errado... – Ela respondeu chorando.
   -O que é vergonha?
   -Quando alguém te vê nua... – Eu sorri.
   -O que é gostar de alguém?
   -Não conseguir viver sem esta pessoa...
   -E qual é meu nome?
   -Wil...
   Abracei-a. Neste exato momento, a lua apareceu por entre as nuvens e iluminou todo o quarto com um brilho azulado. Apertei-a ainda mais forte contra mim.
   -Ainda bem, Lia... Que você não se esqueceu de nada.

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