A garota que não sabia viver
O outono dançava bucólico e silencioso sob minha pacata cidade natal. As folhas alaranjadas se despregavam das árvores e repousavam no chão com calma, dando vida, assim, ao formoso tapete de folhas mortas que decorava a alameda pela qual eu andava de bicicleta. O vento era frio e batia com força em minha face. Famílias passeavam por ali, sob aquele claro céu azul, observando as folhas caírem como lágrimas e respirando com prazer o frio ar bucólico de nossa cidade.
E assim eu ia pedalando, alegre e em paz, até que uma cena a qual avistei a distância me tomou a atenção. Um grupo de garotos de uns dezessete anos – Digo dezessete apenas por serem um pouco maiores que eu, que tinha 15 – pareciam espancar algo. Provavelmente era um gato que, encurralado contra o tronco de uma arvore, sofria das perversidades da juventude. Parei a bicicleta e fui tentar convencer tais garotos de que se deve tratar bem os animais, de que eles têm sentimentos e coisas do tipo, até que eu percebi o que eles realmente estavam espancando, e mal pude acreditar.
Era uma garota, um tanto mais nova que eu, de cabelos negros como o mar à noite e de olhos azuis tão intensos como os de um anjo. Sua pele era branca como papel, como se a garota nunca houvesse tomado sol antes. Seu rosto estava inexpressivo e fitava o vazio, mas ainda assim, estava vivo. E manchado de sangue.
-Que droga é essa? – Exclamei sem acreditar que tais atrocidades pudessem ter sido cometidas contra uma garota. Meu sangue logo esquentou e, incontrolável, parti para a violência.
Os algozes da menina de olhos azuis eram quatro, sendo que um, derrubei com apenas um soco. Os outros reagiram mais rápido do que imaginei: Logo um deles me lançou um golpe lateral que defendi e contra-ataquei sem sucesso. Tentei socar o segundo mais uma vez, porém o mesmo desviou e fui pego por trás por outro deles. Projetei o corpo para frente e joguei o que estava me agarrando por cima das costas. A queda foi feia, e logo ele também estava fora de combate. Porém, os outros dois restantes pularam em cima de mim com força e fui derrubado sem possibilidade de me recuperar. Logo eles começaram a me socar. Eu tinha de reagir rápido, ou então a luta estaria perdida. Mas como? Eu estava completamente imóvel. Foi então que a garota se levantou sem que eu percebesse e se aproximou da gente. Ela chutou um dos rapazes que estavam em cima de mim com força e ele me largou. Logo me livrei do último que restou, girando meu corpo para o lado, derrubando-o e encerrando a luta com um soco na boca do estômago.
Levantei-me limpando um filete de sangue que escorria pelo canto da boca e fitei a garota. O quão linda ela era não conseguiria descrever nem se passasse um dia inteiro trabalhando neste tão fútil parágrafo. Basta que saiba então, caro leitor, que foi a coisa mais bonita a qual já tive a oportunidade de ver em todos estes longos anos. Aproximei-me devagar.
-Você está bem? – Perguntei, porém não obtive resposta alguma. Tomei a ousadia de me aproximar mais ainda e observar os ferimentos em sua face. Para a minha surpresa, não havia nenhum.
-Você não se machucou... Mas então de onde veio este sangue? – Com o coração palpitando um pouco mais forte que o normal, toquei na sua face. Sua pele era macia e sedosa, perfeita, apesar de estar suja de terra e sangue. A garota, no entanto, não me deixou aproveitar mais da sensação. Com suas próprias mãos tirou as minhas de seu rosto e falou, em um tom inexpressivo:
-Eu não me feri.
Fez-se silêncio por alguns instantes, até que um som, quase um grunhido, ecoou pela alameda.
-Você está com fome... – Notei – Quer ir comer algo lá em casa?
A garota hesitou por um instante. Eu sorri com sinceridade.
-Tudo bem.
-Ok! Eu acho que o jantar vai dar pra todo mundo. Além disso, você vai poder trocar de roupa e limpar essa sujeira... – Me virei e comecei a andar enquanto pensava alto. – Porém, vamos ter que encontrar uma desculpa... Não podemos dizer que brigamos. Que tal se disséssemos...
Foi então que percebi que a garota não estava me seguindo. Olhei para trás e peguei-a fitando os jovens que a atacaram se contorcendo de dor e tentando se levantar. Eu suspirei.
-Não se preocupe com eles. Eles mereceram e, além disso, não vão morrer por causa de umas palmadinhas! – Sorri, e isto foi o bastante para a garota me seguir até em casa.
Levei-a de bicicleta. Todos nas ruas fitavam-nos, o que era de se esperar, afinal, não é todo dia que se vê dois jovens ensangüentados andando de bicicleta por aí. Porém, eu estava maravilhado. Sentir o frescor do vento outoniço no rosto já era bom demais sozinho, mas senti-lo junto de alguém tão admirável quanto aquela garota era simplesmente maravilhoso! Mesmo que ela não demonstrasse emoção alguma por estar ali, eu tinha certeza de que podia sentir. Sentir o gosto doce do outono nos lábios, na face, nos cabelos que esvoaçavam e sentir o bucólico frio que percorria o nosso corpo e refrigerava o espírito.
Por fim, ao chegar em casa, contei a minha mãe que tínhamos tentado pegar um gato que ficou preso em uma arvore e que, por acidente, caímos. Foi um tanto difícil convencê-la daquela história, ainda mais pela garota ser tão estranha, porém no fim, ela aceitou. A minha nova amiga tomou banho e minha mãe foi providenciar algumas roupas para ela vestir, afinal, as que ela estava usando estavam completamente rasgadas. Enquanto isso, eu fiquei com meu pai vendo TV.
-E então, Will? – Minha mãe perguntou para mim enquanto adentrava a sala.
Quando me virei, enrubesci imediatamente. Se suja e em farrapos aquela garota já era linda, depois de um bom banho quente e de roupas novas ela era literalmente um anjo. Sua pele, branca e sedosa como algodão, ficara ainda mais intensa do que antes. Seu semblante parecia mais tranqüilo, também. Seus cabelos caiam sob os ombros com mais delicadeza e graça. Porém, seu olhar continuava fixo e inexpressivo, cravado em mim. Pigarreei e fui tomar o meu banho sem comentários adicionais.
Se minha mãe suspeitou da garota em algum momento antes do jantar, o apetite voraz, porém acompanhado por uma educação fina possuída pela garota desfez todas as suposições. Minha mãe adorou ver alguém que gostasse tanto de sua comida, mesmo que sem expressar isso em palavras, e eu, de certa forma, fiquei feliz por elas estarem se dando tão bem. Depois da refeição terminada, ficamos a conversar na mesa.
-Mas então, qual é o seu nome, minha querida? – Minha mãe perguntou à menina. Só então eu notei que nem eu sabia aquela informação.
-Lia.
-Lia... É um nome lindo – Constatei com sinceridade. Minha mãe concordou. – A propósito, eu me chamo Will.
-Will... – Lia repetiu para si mesma.
Depois de uma boa dose de papo furado, constatamos que já era tarde e que era hora de Lia ir para casa. Fora-me incumbido à tarefa de levá-la em segurança para casa, a qual aceitei com prazer. Vestimos nossos casacos e saímos às escuras em uma noite de outono estrelada. A lua não estava visível no céu, o que tornava a terra mais escura e, em contrapartida, as estrelas, mas brilhantes. Caminhamos em silêncio por uma boa parte do caminho até chegarmos à alameda onde nos conhecemos. Por ser uma alameda, a rua era delimitada por árvores. O que tinha além das árvores, do nosso lado esquerdo, era um campo de flores imenso o qual, naquela noite, tinha ares tenebrosos por estar tão escuro. Do lado direito, a alameda fazia fronteira com o fundo de um conjunto habitacional protegido por um muro.
Eu observava todos estes fatores enquanto caminhávamos calados. Me vi observando, então, Lia. Na escuridão quase absoluta, assim não o sendo apenas por causa dos postes intercalados por uma grande distância, Lia não aparentava nenhuma de suas tão fortes características físicas. Talvez pela ausência de tais características precisas, notei pela primeira vez os seus movimentos. Eles eram suaves e silenciosos, como se pretendessem não deixar nenhum resquício de memória por onde quer que passassem. A própria figura de Lia, se observada de longe, não chamava atenção. De perto, porém, havia de matar qualquer sede por beleza ou graça que um ser humano pudesse ter. E eu, que andava um pouco atrás dela, me aproximei para conversar. Porém, antes que qualquer palavra saísse de minha boca, Lia constatou, sem nenhuma emoção na voz:
-Estamos sendo seguidos. Continue andando e não olhe para trás.
Meu corpo gelou de medo. Tentei ser racional, porém, para o caso daquilo não passar de uma brincadeira.
-Seguidos? Como assim? – Sussurrei, porém, não obtive resposta. – É um tipo novo de brincadeira?
-Não é brincadeira. Vamos nos aproximar discretamente daquelas árvores. Quando eu der o sinal, pulamos no campo de flores e corremos para longe.
Eu ainda não estava certo sobre aquilo. Mesmo que quisesse acreditar – O que na realidade, eu não queria - tomar uma atitude como aquela em situações aparentemente tão normais não fazia o menor sentido. Arrisquei-me, então, a uma espiadela pelo ombro. Meu coração disparou quando, entre as arvores do canto direito da alameda, vi um homem armado mirando na gente.
-Lia, ele vai atirar! – Sussurrei com preocupação.
-Eu sei. Conte até três e faça o que eu mandei. – Ela respondeu, apenas.
E assim o fiz. Um... Dois... Três! Pulamos na mesma hora para o lado e aterrissamos no campo de flores. Dois disparos silenciosos foram feitos pelos perseguidores, dos quais nenhum me atingiu. Eu não sabia onde estava Lia, por isso não tinha como saber se ela estava bem. Atordoado, continuei rastejando para longe da alameda enquanto mais sons silenciosos de tiros ecoavam pela escuridão noturna.
Não sei por quanto tempo eu fiquei rastejando, porém o medo delirante dos tiros e a adrenalina fervente que percorria meu sangue me fez percorrer uma distância enorme. Sem que eu percebesse, lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto quase automaticamente, talvez pelo choque repentino da situação. Depois de um bom tempo rastejando, sentei-me, limpei o rosto com as mãos sujas te terra e observei onde estava.
A alameda, de onde eu estava, era apenas uma fila de árvores fracamente iluminadas à distância. Não havia nenhum sinal de Lia e nenhum ruído de tiro. Na verdade, a única coisa que eu podia ouvir era o vento forte e gelado acariciando as plantas e meu corpo. Esperei alguns minutos até eu acalmar minha respiração e até as lágrimas automáticas pararem de cair. Depois de mais ou menos dez minutos, calculei a direção do centro da vila e voltei a rastejar no campo de flores.
Após chegar na cidade, caminhei com cuidado pelas ruas desertas e silenciosas. De vez em quando, avistava alguns dos homens de preto que haviam nos atacado e me escondia em um beco ou em uma esquina. Meu destino era minha casa. Até aquele momento, a situação exaustiva não me deixara pensar em Lia. Meu plano era voltar para casa, quem sabe ter uma boa noite de sono e pensar no resto no dia seguinte. Acho que assim eu pensava porque precisava de segurança, de conforto, algo que sempre tivera até aquele momento, seja por parte de meus pais ou do refrescante outono de minha cidade natal. Mas o vento daquela noite, apesar de conservar um resquício de doce outoniço, era metálico e gélido.
Ao adentrar na rua de minha casa, me retive atrás de uma arvore. Ela estava cercada pelos homens de preto. Eram policiais, só então notei, e meus pais estavam sendo levados por eles para dentro de uma viatura. Ir até lá só me faria ser pego, mas em contrapartida, seria melhor do que fugir. Mas o que eles queriam com a gente? Nunca fizemos nada de errado. Então, de repente, a verdade ficou clara aos meus olhos. Eles queriam Lia. Mas o que ela havia feito? Não parecia tão perigosa assim... E no meio de tantos pensamentos, algo tocou minhas costas. Virei o mais rápido que pude, assustado, até que um dedo fino e suave tocou-me os lábios em sinal de silêncio.
-Vamos sair daqui.
-Lia! Esses policiais, o que eles querem? Por acaso é você? O que vai acontecer com meus pais? – As perguntas derramavam de minha boca sem que eu pudesse conte-las. Lia ouviu todas, mas só respondeu com uma frase:
-Concentre-se apenas em fugir.
Corremos de volta até o campo de flores e rastejamos juntos para longe. Dessa fez, um pouco mais calmo do que da ultima, o tempo não me passou despercebido: Arriscaria dizer que passamos uma hora rastejando, parando de tempo em tempo para descansar os joelhos e os cotovelos machucados e melados de terra. Depois de todo esse tempo, chegamos até uma larga arvore rodeada por uma espécie de moita estranha. A árvore era muito larga mesmo, e alta, e ficava no centro do campo de flores. Lia abriu passagem entre as moitas e adentrou em algum lugar.
-Vem. – Ela chamou.
Repeti o procedimento e, assim que abri a moita, pude ver um grande buraco na arvore onde deveriam caber até três pessoas. Não pude conter uma exclamação.
-Silêncio. Entra – Ela ordenou, inexpressiva. Assim o fiz.
-Você está bem? – Perguntei, depois de alguns segundos de silêncio. Ela fez que sim. – O que vamos fazer agora?
-Dormir.
-E depois? – Lia me fitou com um pouco de impaciência no olhar. Foi pouco, mas foi uma emoção. Eu ri. – Você está irritada!
-O que é isso? – Lia me perguntou. Eu olhei para ela, incrédulo.
-O que você é? – Perguntei com sinceridade. Perseguida pela polícia, sem emoção... Havia algo de errado.
-Sou uma garota normal – Ela respondeu. – O que é irritado?
-Irritado? – Pensei por um momento. – É quando alguém faz alguma coisa que você não gosta, e você se sente ofendida, com vontade de fazer essa pessoa parar... Eu acho.
Lia me fitava intensamente. Depois que terminei a definição, ela deitou no chão e fechou os olhos. Concluí que também deveria descansar e deitei. Porém, não consegui dormir direito aquela noite. Fiquei pensando em meus pais, e em como seria minha vida dali para frente. Eu ri. Provavelmente seria o mesmo de sempre, era só esperar a confusão passar. Não poderia estar mais enganado.
Provavelmente naquela noite eu só dormi umas duas horas, pois quando acordei, tive a sensação de que tinha acabado de pegar no sono. A nossa caverna da arvore estava escura, iluminada apenas por alguns filetes de sol que penetravam nos pequenos espaçamentos entre as folhas da moita. Estava aquecido dentro da arvore, e um cheiro quente e saboroso de pão fresco invadia minhas narinas com prazer.
-Toma. Para comer. – Disse Lia enquanto me estendia um pão.
-Onde você achou isso? – Perguntei com ares um tanto rigorosos.
-Come.
-Você roubou?
-Come.
-Você não roubou, roubou?
-Come! – Lia falou com um pouco mais de força na voz. Suas sobrancelhas se contraíram e seu semblante enrijeceu como na noite anterior. Eu ri novamente.
-Você está irritada de novo!
-Irritada... O que é isso?
Fitei-a confuso. Será que estava brincando? Mas não parecia. De repente, tive medo.
-Lia, eu te expliquei ontem, não lembra? – Ela fez que não com a cabeça.
Encostei-me na parede úmida e suja da arvore e mordi o pão. Será que ela tinha uma espécie de amnésia freqüente? Talvez isso explicasse o fato de não ter emoções. Ela podia ter esquecido todas.
-Responde. – Lia ordenou. Suspirei.
-Uma pessoa fica irritada quando a outra faz algo ruim – Expliquei. – e roubar é algo ruim, então não quero que você faça isso de novo.
-Eu estava com fome. – Ela se justificou.
-Há outros meios de obter comida. Por exemplo, poderíamos ir na minha casa.
Lia relaxou e se encostou na parede da arvore, levando um pão a boca e dele tirando um grande pedaço. Depois de comermos dois pães cada, saímos do nosso esconderijo e fomos ver como estava o movimento da cidade.
Tinham menos homens de preto do que a noite, constatei. Podíamos andar mais relaxados. Porém, em uma esquina ou outra podíamos ver um deles sentado em um banco, observando a região. Decidimos, então, ir a minha casa para ver como estavam as coisas por lá. A residência estava completamente trancada, janelas fechadas e cortinas também. Bati três vezes.
-Quem é? – Perguntou minha mãe, depois de um tempo, com um tanto de medo na voz.
-Sou eu mãe! – Respondi. A porta se abriu imediatamente. Ela nos puxou para dentro e voltou a trancar. Eu estava atônito. A casa estava completamente escura, não dava para ver nada. Minha mãe tomou-me nos braços e apertou-me com força.
-Vocês precisam sair dessa cidade o mais rápido possível. Vão para longe e não voltem tão cedo. Tomem cuidado com a polícia, não confiem em ninguém. – Minha mãe falou com velocidade e medo na voz. Então, ela tocou em meu cotovelo e notou a camada de lama seca que havia se formado. – Tomem banho. Vocês devem sair o mais rápido possível.
Eu estava confuso, porém tentei ser racional e seguir os conselhos de minha mãe.
-Lia, pode se lavar primeiro. – Ordenei com seriedade.
-Não, vocês vão juntos. – Minha mãe corrigiu. Enrubesci na hora.
-Mas mãe...
Então, as luzes foram acesas. Minha mãe estava coberta de hematomas roxos. Seus olhos marejavam e ela parecia fazer esforço para ficar em pé. Não parecia que a morte, dela estava se apoderando, porém seu estado era deplorável.
-Mãe, você foi... Torturada? – Perguntei, fora de mim. Minha mãe começou a chorar. Eu não conseguia me mover.
-Vamos, Will... – Lia chamou, segurou minha mão e me levou até o banheiro.
Era simplesmente coisa demais para minha mente interpretar em apenas dois dias. Meus pais haviam sido torturados. Eu era um foragido da polícia por ajudar uma criminosa, e esta criminosa, tão divina e pura, não podia eu acreditar que realmente criminosa era. Eu estava próximo a ter um colapso, até que Lia começou a tirar a roupa e eu voltei à realidade. Minha face corou, porém, eu entendia perfeitamente a situação e decidi não fazer muito caso a respeito disso. Tínhamos de tomar banho rápido, o que não me impedia, entretanto, de evitar olhar para ela. Entramos juntos na banheira e nos lavamos com velocidade. Não foram poucas as vezes em que nossos olhares se encontraram dentro daquela banheira, porém a cada vez que aquilo acontecia, desviávamos a atenção para outra coisa. Até que eu peguei Lia corando, e ri baixinho.
-Você está com vergonha também, então. – Constatei.
-O que é vergonha? – Ela perguntou inexpressiva.
-Vejamos... É quando você gosta de uma coisa e... – Minhas orelhas arderam por causa do sangue que, de repente, concentrou-se na minha face. Apressei-me em corrigir: – Digo, é quando você tem medo de que alguém te veja nua!
-E o que é gostar?
Sua voz parecia mais suave. Olhei para ela. Seus lábios estavam úmidos e sua pele brilhava com a água que a cobria. Perdi-me por um instante em tão belos fatores de sua aparência, até que, não sei como, retornei à realidade.
-Gostar de alguém é quando você não pode viver sem esta pessoa... Eu acho. – Respondi, incerto. Surpreendi-me, entretanto, quando avistei uma pequena alteração na expressão de Lia. Seus lábios se estenderam horizontalmente em um princípio de sorriso, pensei. Mas talvez tenha sido apenas uma impressão.
Depois de limpos, minha mãe providenciou roupas para nós e perucas que ela costumava usar quando mais jovem. Lia se vestiu com um vestido branco, que coube perfeitamente em seu corpo pequeno, e uma peruca castanha. Para isso, teve de cortar o seu cabelo até ficar parecido com o meu, o que foi, de certa forma, triste para mim. Para ela, pouco importava. Eu pus uma peruca de cor parecida e amarrei em um rabo de cavalo, de um jeito que não ficou estranho, mesmo eu sendo um garoto. Minhas roupas foram comuns: Apenas uma calça jeans e uma camisa de manga. Tivemos que maquiar Lia depois, para que ela não parecesse tão branca o quanto era. Certamente, sua cor chamaria atenção. Tentamos deixar o mais parecido com o tom da minha pele o possível, para assim podermos nos passar por irmãos. O resultado foi satisfatório. Minha mãe e eu providenciamos comida e dinheiro em uma mala, enquanto Lia escrevia algo em uma folha de papel.
-Estamos prontos, Lia – Avisei enquanto adentrava a sala. Ela se levantou e se dirigiu ao meu lado. Me virei para minha mãe. - Acho que isso é uma despedida, então.
-Sim, né? Façam o favor de voltar para casa depois que essa confusão passar! – Minha mãe disse, fingindo despreocupação. As lágrimas que percorriam seu rosto, porém, contavam outra história.
Foi então que Lia se aproximou de minha mãe.
-Mãe do Will... Me dê a sua mão. – Falou Lia, com uma doçura na voz que me surpreendeu. Minha mãe obedeceu.
Uma luz dourada inundou a sala e me cegou por alguns instantes. O chão pareceu desaparecer e eu tentei gritar, porém nada saiu de minha garganta. Olhei para onde estava Lia e minha mãe e pude ver apenas dois vultos negros. Minha mãe caiu no chão e, aos poucos, a luz foi diminuindo. Quando tudo voltou ao normal, eu estava sem fôlego e Lia olhava para mim inexpressiva. Ela olhou para o papel em cima da mesa e me perguntou, com a mesma doçura que falou com minha mãe.
-Will, o que é gostar de alguém mesmo?

Ruukasu...
ResponderExcluirVc vem me dizer que isso está mal escrito? Estás loco?!!! IAUSHaushISUHsuih
Meu deus... Que conto bárbaro! Incrivel... Mexeu com minha cabeça de uma forma realmente incrivel, me deixou muito intrigado. E me peguei numa pequena afeição a garota, embora não consigo entender exatamente o que ela seja. Acho que é como o caso de Will. Realmente... amei.
Está divino! Quero a continuação assim que possivel. OMG... Simplesmente eletrizante, num ritmo incrivel, prende completamente a atenção.
Meus parabéns meu amigo. *--*