O Besouro
O carro desafiava com desdém o poderoso vento que se lhe opunha enquanto percorria a estrada com pressa e silêncio. A minha cabeça pendia e minha testa tocava a fria janela do banco traseiro. Através do embaço que afligia o vidro e das gotas de orvalho que ali repousavam, eu observava com uma espécie de admiração calada o verde-morto da grama que se estendia por entre a estrada e a floresta de árvores alaranjadas. O frio confortável que a brisa trazia junto a si, de tão puro ar e tão gelado, parecia mentira em um céu tão azul e um sol tão brilhante; Mas assim o era, o vento, frio como o bafo de geladeira. E também assim era o ar, tão puro quanto a mais cristalina das águas.
De repente, o carro adentrou uma alameda estreita, que mais parecia um túnel sufocante de árvores outoniças. A estrada estava coberta por um tapete vermelho e amarelo que se desmanchava assim que o carro passava por ele. As folhas voavam laranjas, vermelhas, amarelas, e se confundiam com os raios de sol, tão poucos por conta das espessas copas dos arvoredos. Por entre os troncos, pouco se via por culpa da proximidade um tanto quanto exagerada das árvores. Porém, por entre o laranja das folhagens, o verde da grama e o marrom dos troncos, pensei ter visto algo. Sim, lá estava de novo. Uma raposa, tão viva e tão avermelhada, que logo se perdeu por entre os ramos de folhas e galhos.
Então, o carro começou a desacelerar e as folhas deixaram de dançar ao vento por conta de sua passagem. A proximidade das árvores deu lugar, por fim, a um portão de madeira branco e, por detrás dele, a um vasto campo de barro com uma casa no meio. O portão foi aberto e o motorista abriu a porta do carro para mim. Adeus, ó vidro frio, adornado por tão perfeitas gotas de orvalho!
Desci do carro, estiquei as pernas e observei o carro continuar seu caminho sem mim enquanto eu acenava. A estrada coberta por folhas alaranjadas descia em uma depressão do terreno e se perdia em uma longa curva para a esquerda. As arvores tornavam-se menos próximas a partir daquele ponto, e a estrada, menos estreita.
Ao adentrar os portões de madeira, pude observar com mais detalhes aquela tão larga casa e o tão imenso pátio. Um carvalho gigante projetava-se para o céu e, ao seu lado, a casa residia. Era adornada com muitas flores, a casa. Era branca e só possuía um andar, apesar de ser extremamente larga. O campo de barro, ou deveria chamá-lo de pátio, possuía algumas áreas de grama e, nessas áreas, era preenchido com lindas margaridas. A casa era, ao todo, confortável e bonita. Porém, antes que eu entrasse, decidi andar um pouco e caminhei pela continuação da estrada.
Depois da pequena depressão no terreno e da longa curva à esquerda, a estrada configurava-se em uma subida longa, após a qual havia uma descida incrivelmente íngreme. Abaixo dela, a estrada adentrava numa área da floresta onde as árvores eram incrivelmente altas. Do alto da descida, eu podia ver a copa da floresta se estendendo pelo horizonte em um belíssimo dégradé vermelho-amarelo. Desci a ladeira com calma e, com certo medo, percorri a estrada pela floresta. Tudo era denso, escuro e estreito no emaranhado da mata. Se antes se podia ver o asfalto pelas brechas que as folhas faziam, agora só as folhas podiam ser vistas. O sol era tão escasso quanto no túnel de árvores, talvez até mais. O vento era mais frio e a estrada era mais silenciosa. A frente havia uma curva e, após a curva, a densa alameda se abria em um amplo espaço aberto.
Havia um lago naquela tão grande clareira. A floresta a circundava fazendo uma fronteira extremamente bem desenhada. As densas árvores acabavam exatamente onde começava a clareira. Havia um espaço aberto de grama preenchido por algumas árvores gigantes, bem afastadas umas das outras, e, vez em quando, aparecia uma flor por entre a gramínea. A água do lago era bastante escura e a sua superfície refletia com perfeição o vermelho e o amarelo das árvores do outono. A estrada percorria as bordas da clareira, descrevendo uma volta na lagoa, até desaparecer na margem oposta.
Foi então que minha vista focou-se em uma das árvores e, por entre o amarelo das flores outoniças, avistei cabelos tão dourados quanto suas próprias folhas. Duas ametistas extremamente azuis fitavam-me os olhos. Era uma garota de cabelos dourados e olhos azuis, pendurada pela sua mochila em um galho baixo de um carvalho. Ela vestia uma longa saia azul-escuro e uma camisa branca de manga longa e cheia de detalhes, e um cachecol enrolava-se em seu pescoço. Seus lábios úmidos se abriram lentamente e as primeiras de muitas palavras ecoaram pela clareira.
-Me ajuda a descer?
-Como você foi parar aí? – Perguntei.
Fez-se silêncio por um instante. A garota estava procurando uma resposta, enquanto eu a esperava pacientemente. De repente, um vento frio varreu a clareira e a garota se desequilibrou, quase indo ao chão.
-De que importa o motivo? Tira-me logo daqui! – Ela gritou com medo. Decidi alongar um pouco mais a conversa, apenas por diversão.
-Por que deveria, sem motivo, tirar-te daí? – A garota me fitou com intensidade e, logo após, seu olhar tornou-se suave e compreensivo.
-Por acaso há, na terra, algum ser que não mereça liberdade?
-Obviamente! – Respondi. – E se fores uma ladra?
-Então dizes que, por ser uma ladra, não mereço liberdade?
-Obviamente.
-Então o que é liberdade?
Parei por um instante. O que queria dizer com tal pergunta? Depois de pensar por um longo minuto, respondi – É o estado de ser livre...
-Muito vago.
-É não estar subordinado a nada e a ninguém. – Pronto! Suspirei satisfeito com a resposta.
-Então dizes que só por eu ser uma ladra, mereço ser subordinada a você ou a esta árvore?
-De certo, assim como o ladrão merece ser subordinado à prisão.
-E será que, mesmo na prisão, não é o ladrão livre?
-Claro que não. Ele está preso, suas ações são limitadas, não tem escolha própria!
-Sério? Por acaso ele não pode escolher se come ou não? Se dorme na cama ou no chão? Se deve andar pela cela ou ficar parado? Se não está ao todo livre, também não está ao todo preso. – E concluiu: – Mesmo preso, o ladrão possui liberdade. Ele pode pensar. Ele ainda tem escolhas. Nenhum homem tem o poder de tirar a liberdade de alguém, senão o próprio possuidor desta liberdade. Por tanto, me tire daqui.
O que ela quis dizer com isso? Virei o rosto, um tanto envergonhado. Não tinha mais argumentos... De certo modo, eu entendia o ponto dela. Tudo dependia de como se via a liberdade... Não queria perder a discussão, mas que eu retrucasse era justamente o que ela queria. Quanto mais duvidasse, mais cairia na armadilha dela. Apelei, então, para uma fuga mais direta do assunto – Que baboseira! Não tenho tempo para ficar discutindo com você!
-Ora, ora! – A garota riu. – Não foi você quem me supôs ladra primeiro? Agora vamos, tira-me daqui.
Bufei. Caminhei até o carvalho e me postei abaixo da garota. Ela, no entanto, corou e pôs as mãos entre as pernas.
-Idiota! Não vê que estou de saia? –Ela gritou enquanto corava.
-Então como você quer que eu te pegue? – Gritei em resposta.
-Suba aqui e me puxe de volta para o galho – Ela disse, esnobe. Levantei uma sobrancelha com desdém.
-E se você escorregar e cair enquanto eu te puxo? Não vai ter ninguém para te agarrar em baixo.
E ela respondeu em um tom baixo, quase um sussurro. – Eu serei verdadeiramente livre, então – E em uma voz mais clara: – Vamos, suba aqui e me ti...
De repente, o galho se partiu e a garota caiu. A altura era aproximadamente três metros, e logo atirei meu corpo contra o seu enquanto ele caia. Fomos ambos ao chão.
-Aí! Acho que bati minha cabeça! – Exclamou a garota enquanto se sentava. Ela caíra por cima de minhas costas, as quais, agora, doíam como se a queda fosse minha.
-Deixa eu ver – Falei, ajoelhando-me por detrás da menina e catando-lhe o cabelo.
Diversas folhas de carvalho se emaranhavam por entre os sedosos fios daquela tão dourada cabeleira. Tirei-as, uma a uma, as folhas, enquanto notava com prazer o quão bem cuidados eram aqueles bem-feitos cachos. Não havia nenhum sangramento, e apenas uma pequena protuberância se formara no couro cabeludo da garota, invisível para qualquer um que não a tocasse. Me afastei dela e fiquei de pé.
-Não tem sangue. A propósito, quem é você?
Perguntei, visto que ainda não nos conhecíamos ao todo. A garota se levantou, limpou a saia e tornou-se para mim, sorrindo. Disse que se chamava Beatriz e que era filha do dono da vinícola da vila. Contou também que viera até aquela clareira a procura das maiores e mais vermelhas folhas de carvalho. Disse que colecionava as folhas e gostava de guardar as maiores que encontrava, por isso muitas vezes acabava ficando presa em cima das árvores. Apresentei-me Luiz e contei de onde vim e para que estava ali. Após a conversa, ela voltou a procurar folhas na árvore e eu sentei-me à beira do lago, e tirei um papel e uma caneta do meu bolso. Sim, era para isso que eu havia vindo até ali: para escrever. Pensei por um instante e dei vida, assim, aos primeiros versos de meu poema.
Dançam as folhas amarelas e vermelhas
Como chuva de ouro e chama.
Por entre a calma desta tarde permeia
Sonhos de um vento que me clama.
O chão é coberto por tapetes de folhas
O que há de baixo delas, pura sorte.
O tapete de folhas... Tão vivo!
Se profundo visto, pura morte!
-Pura morte? – Perguntou Beatriz por detrás de meu ombro.
Levantei em um salto. Tão entretido estava com minha poesia que nem notei que ela se aproximara. Pouco barulho fizera a garota, também, se é que fizera algum. Pediu-me, então, para ler minha composição. Relutei. Nunca havia mostrado minhas poesias para ninguém, e não tinha certeza de quão boas elas eram. Além disso, poderia ser motivo de chacotas. Poucos são aqueles que compreendem a verdadeira arte como algo além de sentimentalismo exagerado. O olhar da garota, entretanto, demonstrava sinceridade e verdadeira vontade de ler e apreciar minha composição. Entreguei hesitantemente o pequeno bloco de papel, o qual ela leu em voz alta. Sua voz era suave e sabia entoar cada rima com a vitalidade e a beleza que lhe pertencia. Quando terminou, estendeu-me a poesia e comentou que estava ótima, porém, que discordava do ultimo verso. Pediu que eu o explicasse.
-Minha intenção foi mostrar como a beleza e a vivacidade do tapete de folhas, na verdade, era morte – Expliquei – Afinal, as folhas caídas são folhas que uma vez habitaram a grande árvore, porém que morreram e agora povoam o duro chão.
-Mas a morte em si não existe. Sequer a vida assim o faz. É tudo uma ilusão! – E me sorriu. Tentei por um longo instante entender aquelas palavras, porém sentido algum via em tudo aquilo. Pedi que me explicasse mais.
-A folha que caiu da árvore e agora povoa o chão, futuramente, vai ser absorvida pelo solo, e a própria árvore tomará de volta a sua composição química. Ou seja, ela não morreu, apenas deixou de ser folha e virou tronco. E tudo isso para garantir a sobrevivência da grande árvore no terrível inverno que se aproxima.
-Mas só o ciclo da folha não te dá propriedade o suficiente para dizer que a morte não existe. E se a árvore for derrubada?
-Aí então, outra árvore tomará para si seus componentes químicos.
-Mas a vida já terá se extinguido!
-A vida é uma só.
Eu estava começando a me irritar. A conversa se tornara confusa e apelativa, e as idéias, extremamente incompreensíveis. Meu próximo argumento deveria ser aquele que terminaria com a confusão, e calculei as palavras com cuidado. Disse, enfim, que cada ser possui sua vida, e que a morte representa o fim daquele ser, logo, o fim daquela vida. Ela, entretanto, sorriu com diversão e um pouco de perversidade, aceitando o desafio de combater minha idéia.
-Analisemos a morte de um ser humano com cuidado. Sua matéria continua a existir após a mesma, logo, não há morte para o que se pode ver e tocar. Sua consciência e sua alma, em primeiro lugar, nunca foram coisa alguma para serem perdidas. Por exemplo, como irei saber eu se você tem uma alma ou uma consciência? Impossível descobrir. Quando morreres, caro Luiz, serás apenas você mesmo, porém imóvel, para mim. Se algo doer em mim não será sua morte, mas sim a ilusão de que nunca mais te verei. Concluo assim que a idéia de morte que tens, que é a de que a vida se acaba, é inválida, pois tudo que és para mim é o seu corpo, e mesmo depois da morte seu corpo continuará a existir.
-Mas a vida que existia em mim se apagou, logo, eu morri! – Retruquei numa tentativa de entender melhor.
-Que é vida? O conjunto de alma, corpo e consciência? Sua consciência e sua alma só você pode sentir, logo, para mim elas não existem. E seu corpo nunca há de morrer, afinal, a matéria nunca se destrói.
-Então você diz que, se considerarmos o ponto de vista sendo você, não há morte para mim, apenas uma mudança de estado? Digo, uma mudança de altivez para um estado imóvel? – Perguntei. Visto que ela fez que sim com a cabeça, me estendi – Então quando morreres sentirá por si mesmo sua alma e sua consciência se esvaindo, e assim acreditará no fim!
-Você já morreu alguma vez, Luiz? – Ela perguntou. Estranhado com a pergunta, respondi nunca ter morrido – Então, como sabes? Sim, admito que a vida deixa nosso corpo um dia. Mas chamar isso de morte não é certo, afinal, a vida em si não acaba. Nós nunca morreremos enquanto estivermos vivos, e só estaremos vivos enquanto formos nós mesmos; Sendo assim, nunca morreremos enquanto formos nós mesmos. Entende, Luiz? O tempo é uma ilusão. Na verdade, nós somos vivos para sempre, porém em um período da história da vida apenas. A nossa vida não tem inicio ou fim. É apenas uma vida, e a morte nada é, pois a morte não acontece na vida, e sim depois dela. E a vida em si abrange todos os seres vivos, e não apenas um. Não existe uma vida para cada homem, mas sim uma vida que abriga vários homens em si. A morte não existe pois ela é impossível enquanto vivemos, e a vida é impossível de existir pois ela não pertence a um ou outro ser, apenas, mas a todos, e nunca há de terminar. Mesmo quando todos os seres vivos do universo morrerem, a vida continuará existindo como probabilidade. Sim, a vida é uma probabilidade que nunca vem a ser real, enfim.
“Quantas tolices! A vida não existe? A morte não existe?” Exclamei. Corri até a borda da floresta e procurei algum inseto por lá. Avistei um grande besouro e trouxe-o até Beatriz, que me olhava com curiosidade. Pressionei o besouro contra o tronco do gigante carvalho e, com um poderoso chute, esmaguei-o por completo. A garota se impressionou um pouco, mas não realizou nenhuma ação além de esperar por minha explicação.
-Quer dizer, então, que este besouro não morreu? Que ele está vivo? – Exclamei com um riso sarcástico e desdenhoso.
Beatriz apenas se aproximou da árvore, pegou uma parte da nauseante carcaça do besouro e levou-a a boca. Engoliu-a com dificuldade e nojo, e depois disse, sorrindo sem graça:
-Pronto. O corpo do besouro agora faz parte de meu corpo, e sua consciência e alma agora residem no passado. Por acaso a vida, grande probabilidade de tudo se mover, agora se extingue só por causa dessa tão fútil “morte”?
Eu fiquei atônito, tanto pelo nauseante fato de ela ter comido o besouro, quanto pela absurda clareza daquela verdade. Tentei ser racional, por fim, e terminar com certo juízo aquela discussão absurda.
-Mas qual o benefício prático destas verdades? Que a vida e a morte não existem... Em que isso muda nossas vidas?
Ela sorriu e respondeu: – O pensamento liberta. Só por pensar, já valeu à pena. O outro benefício desta verdade, você sentirá quando alguém morrer, certamente.
Sob as águas escuras desta lagoa
E sob o odor nauseante do fim
Ela me diz, com certeza e um sorriso.
Que o tapete vermelho e amarelo
Ao mesmo tempo tão vivo e tão morto
Não passa de um truque a ser visto.
E assim terminei meu primeiro soneto daquele outono, ao qual nomeei “O besouro”.

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