O prólogo da vida
Vocês irão juntos. Antes de embarcar, contudo, com muito cuidado escutem as instruções que agora vos dou. É a mim que até a morte se curva, e se é de meu seio que vocês vêm, devem por minha boca ser alertados sobre o que vos espera.
Do ventre de alguma moça os dois hão de provir. Para que ambos possam agir e ter uma experiência melhor nestes anos que vos cedo, crio o tempo. Com sutileza e vaidade um há de ser abençoado, e o outro, força e resistência receberá. Serão atributos fortes a inteligência e beleza em ambos, tal como propõe os padrões de beleza e inteligência da época em que viverem. Serão perfeitos em suas constituições físicas e psicológicas, providos do melhor que tenho para vos oferecer, ainda que este “melhor” seja baseado no julgamento de um grupo pretensioso; Um dos dois há de ser feito para semear. O outro, tal como a mãe que o pariu, será feito para o ofício da maternidade.
Confundir-se-ão suas almas e suas mentes durante todo primeiro amadurecimento. Infância. É logo nesta primeira e estreita curva que brotarão todos os seus problemas; Mas não se desgostem logo da caminhada. Terão os braços um do outro para queixar-se do que vos entristece. Curiosidade hão de ter acerca de o que existe de mais íntimo no corpo que moldei para vós. Muitos hão de culpar-vos e acusar-vos dos piores pecados quando emergir a superfície tais instintos; Deste momento não tenham medo. Não entendem eles que suas roupas não mudam o fato de estarem todos nus. Despidos eu vos criei, e despidos vossos corpos hão de estar até que com mortalhas sejam todos cobertos.
Hão de ter seus mundos separados logo depois. A infância foi concluída, e o corpo que moldei para ambos está próximo do amadurecimento. Adolescência. Eu hei de sentir pena do vazio que irá ficar entre aquele tempo em que os mundos eram um só, e agora que estão tão distantes. Vocês naturalmente hão de deixar para trás toda beleza dos primeiros momentos. É triste pensar que tudo há de passar e que ambos esquecer-se-ão do quão valioso fora tudo aquilo; Criarei, portanto, nesse momento, a nostalgia. É a prova absoluta de que a infância se concluiu, e também prova absoluta do quão importante ela fora.
Aviso-vos que nesta época é comum sentir pequenas agulhadas no peito. Estão cada vez mais distantes, vocês dois, cada vez mais perto dos outros, e mais distantes de si. Os sintomas do prognóstico são dores pontiagudas no miocárdio, ansiedade à ausência e um aumento expressivo de adrenalina na corrente sanguínea sempre que expostos ao estimulo externo da presença de certa pessoa; Um demasiado número de descobertas hão de acontecer neste período, e por sorte, em memória aos resquícios da primeira infância, à noite, de dentes escovados, de cabelos escovados, ambos prontos para dormir, vocês vão relatar um ao outro as descobertas do dia, em sussurros, com a luz do quarto apagada e o ventilador girando, ritmado, vão lembrar quando os dois viviam em um mundo só e vão dormir com um sorriso caloroso no rosto. Não se enganem: este é um dos mais sublimes presentes que vos dou: a eterna amizade de um irmão.
Mais um degrau os dois hão de subir, e vão se distanciar mais ainda. Mundos diferentes. Casas diferentes. Talvez cidades diferentes, amantes diferentes, ritmos diferentes, tudo diferente. Outra pessoa cada um dos dois há de encontrar para compartilhar a vida, e aos poucos vocês hão de esquecer um do outro. Também é deveras triste este fato, e como não gosto de tristeza tamanha, abençoou-lhes com outra dádiva: a saudade. Ela vai garantir que se vejam vez em quando. Do ventre dela, outro corpo eu hei de tirar. Do lânguido gemido de alcova dele, extrairei as sementes que, semeadas, hão de permitir-me criar novos corpos. Eles vão crescer e fatalmente se mudarão para outro mundo, outra casa, outra vida. Vocês vão se sentir sozinhos, tristes, velhos. Velhice. Chegarão à reta final da vida. E como, vou repetir, desgosto ver filho meu sofrer, crio o descanso e o amor. Aviso-lhes de antemão: Quando fores escolher vossos respectivos parceiros, sejam meticulosos. Qualquer descuido implicará um erro nesta equação final, e acabarão sozinhos, sozinhos, podem imaginar como é triste? Mas nenhum dos dois há de cometer tal erro. São perfeitos! Vão descansar com a pessoa que escolheram por um longo, longo tempo.
Eu me considero um ser muito ocupado. Infinitas existências tenho para moderar, não pense que só os do seu tipo merecem meus cuidados. Até aos insetos e às bactérias mais insignificantes eu promovo felicidade em abundância e um pouco de dor quando quero fazê-los notar que a felicidade reside em outro caminho. Está aí, uma dádiva de muito pouco reconhecimento, que considero de extrema importância. O sofrimento. Aí de ti, seres vulgares, se não fosse o sofrimento. Seriam tão fúteis, tão secos, tão pequenos! E de merda me chamam se tento vos dizer isso; Enfim. Até a solidão é uma dádiva que vos dou, mas que poucos reconhecem. Neste mundo meu ninguém há de sofrer por estar só, pois até àqueles que não têm ninguém eu cedo a calorosa companhia da solidão, mas eles não entendem.
Um dia, vocês dois hão de ficar cansados. Os corpos que vos dei já estão muito gastos. A mente de ambos, depois de décadas e décadas de processamento, clama por descanso. O coração que vos exercita a vida, depois de tanto e tanto bater, já está fraco e ofegante. Não há mais nada para se fazer; Os dois hão de cansar-se até mesmo de descansar! Seria terrível prolongar esse tédio infinito infinitamente, não pensam assim? Cedo, por fim, a mais absoluta das bênçãos, a mais seca e mais definitiva, e a que trará mais felicidade à vida de quem a recebe: a bênção da morte.
Mas a quem não a recebe, a morte, uma bênção ainda mais nobre e bonita é cedida por minha existência generosa. Como presente, preparo uma mistura de saudade, nostalgia, tristeza e solidão, para não deixar a pessoa vazia e nem fazê-la de besta. Você, o irmão restante, há de chamar esta tristeza de luto. É a mais intensa das bênçãos, pois prova o quão importante fora aquela pessoa a ti, e só há de deixar-te quando você também, irmão restante, morrer. Por isso não tente escapar do luto: abstenha-se a ele, que você há de perceber o quanto amou o seu irmão.
Mas ambos morrem. O que vem depois? É o que sempre me perguntam. E o que vem antes da morte? Respondo-vos sem cerimônia. A resposta é simples: não acontece nada. Crio o corpo com o pó que acho pela frente, mas a alma de vocês dois, ah! Esta alma de que tanto se orgulham, a que tanto se prendem, onde tantas crenças depositam, ah! Ela não é nada! Pego um pedaço de vazio e ponho no corpo, e no fim, pego o mesmo vazio e o jogo em lugar nenhum. O mesmo vazio que resides em ti e que o faz vivo é o vazio que reside na pedra e a faz existir.
Porém, se assim vos agrada, dou outra explicação para o que acontece após a morte. A alma há de virar pó. Vai se desvanecendo, devagar, e flutuando em uma lufada lenta de vento, e flutuando pela brisa do céu até atravessar a atmosfera e adentrar o espaço. O pó de alma vai subindo, subindo, até chegar aos portões do céu. E lá, sob as alvas nuvens e as douradas coroas de ouro, à vista de maravilhados anjos e Deuses diversos, o pó Dele há de encontrar o pó Dela, e ambos hão de dançar no maravilhoso e fantástico palácio de Deus. Sim, está correta essa descrição. Afinal, foi para isso que tive o cuidado de, antes de todas as bênçãos, criar estas duas que, acima de todas as outras, tornam a vida mais viva e interessante. São duas bênçãos gêmeas, tal como vocês dois, pequenos que agora vão nascer, duas bênçãos que são a mesma coisa, tanto quanto vocês dois. Estas são a fé e a esperança. Retenham-se a estes dois presentes, filhos meus, que são eles as asas dos homens. Ainda que sejam asas irreais, sonhadoras, infantis. Vista-as: conseguirás voar.

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